Eu estava com o Gato Gordo perto de fim. Ele, envolto em um novelo de lã, respirava pesadamente após um coquetel de remédios. Para aqueles desordenados em relação à alimentação, um dia a vida cobra seu preço. Entretanto, depois de tanto tempo juntos, providenciar uma passagem mais tranquila para meu amigão era uma obrigação inalienável de minha parte.

Gato Gordo exalava seus últimos e esforçados miaus. Com dificuldade, chegou perto do meu ouvido e pronunciou em linguagem felina: “bacon”. Naquele estado, não achava que tal alimento infiel pudesse fazer bem ao moribundo gatinho. Mas, como parte de minha promessa, atenderia ao desejo.

Após a refeição, ele parecia estar em paz. Dormiu por 18 horas respeitando ao ciclo natural de comida, sono e banheiro – ou caixa de areia. Renovado, Gato Gordo parecia estar melhorando a conta gotas. Minha mente, todavia, estava nublada pelas doces expectativas. Aproveitando-se da situação, o gato fez um segundo pedido: “calabresa”. Bacon e calabresa. Indubitavelmente, uma última refeição para ser lembrada. Naquela altura eu já começava a suspeitar das reais intenções daquela galinha peluda disfarçada de gato.

Eu não sou gênio da lâmpada, mas prometi conceder três desejos ao Gato Gordo. Decidi que não forneceria mais qualquer veneno travestido de alimento para ele. Mas era difícil suportar aquela delicadeza felina. Como se jamais tivesse pedido nada, o gatinho se aproximou para seu último ato em vida: “um abraço”. Depois de tanto tempo juntos, construindo uma história de mais de 300 crônicas, era o mínimo que eu poderia fazer. Dei um abraço fraternal na bola de pelos. E aí o gato virou um gatuno. O afago serviu apenas para que ele pegasse o sanduíche de queijo que eu guardava no bolso de meu casaco. Baita safado. Fiz aquele sanduba com o carinho de uma avó querendo agradar o neto. Mas ele me foi roubado.

Naquela altura eu já estava pensando: “mas vai para o diabo que te carregue, seu gato maldito”. As crônicas sempre foram minhas, o felino só me emprestou sua lata engraçadinha. E assim me serviu durante quase dois anos. Mas a morte de Gato Gordo não poderia ser esquecida. Colocar outro animal no lugar, como um cachorro, um bezerro ou um rinoceronte seria uma afronta a sua memória. Colocar outro gato, então, nem se fala.

Após seu último suspiro, notei que era hora de mudar. Quem cresceu não foi o gato, mas sim eu, um cronista das figurações. O Gato se foi, mas o blogueiro fica. O blog do Gato Gordo morre com seu paraninfo e, das cinzas, surge um novo blog, uma nova ordem mundial.

Sem máscaras, sem gatinhos engraçadinhos. O nome blog levará o nome de seu dono e único contribuinte. As mesmas crônicas do passado dirigindo as crônicas do futuro.

Confiram: http://gabrielguidotti.wordpress.com/

Gato Gordo, requiescat in pace.

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